OBSERVARE
Universidade Autónoma de Lisboa
e-ISSN: 1647-7251
VOL13 N2, TD1
Dossiê temático
Perspectivas sobre a presença internacional da China
Dezembro 2022
19
A DIÁSPORA CHINESA NO BRASIL: DISPERSÃO, MITOLOGIA DA TERRA DE
ORIGEM E PROMESSA DE RETORNO
DANIEL BICUDO VÉRAS
daniel.veras@fgv.br
Pesquisador no Núcleo de Estudos Brasil-China da Fundação Getúlio Vargas - Direito - Rio de
Janeiro (Brasil), e é convidado em cursos de Sociologia e Filosofia para alunos de Universidades
dos Estados Unidos da América (Syracuse, Colorado Boulder, Missouri) pela CUSSA China
Universities Summer Schools Association. Trabalhou na Prefeitura de Santo André-SP como
pesquisador do Departamento de Indicadores Sociais e Ecomicos da Secretaria de Orçamento
e Planejamento Participativo. Trabalhou na Hubei University, China, onde lecionou língua
portuguesa e cultura brasileira, estabelecendo intercâmbio educacional e cultural entre Brasil e
China, em parceria com o Instituto Confúcio e UNESP. Na ocasião, foi membro do Centro de
Estudos Brasileiros da Universidade. É pesquisador-membro do Núcleo de Estudos e Pesquisas
Urbanas - da PUCSP, e do Grupo de Pesquisa Diálogos Interculturais. Foi também do quadro
editorial do Wudpecker Journal of Sociology and Anthropology, e de 2010 a 2018 apresentou a
video-conferência anual “Brasil: Sociedade e Economia” para o Institut Supérieur d’Ingénierie
d´Affaires ISIALM, França. Possui doutorado e graduação em Ciências Sociais pela Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo e mestrado em Comunicação e Semiótica pela mesma
universidade. Tem experiência nas áreas de Comunicação e Ciência Política, atuando
principalmente nos seguintes temas: China, arte, cidade, migração e cultura, inglês.
Resumo
O presente trabalho visa a fornecer um panorama da presença de chineses no Brasil,
estimados em 300.000. Tendo como base a relação dialética entre Brasil e China, a presente
investigação trabalha com as seguintes hipóteses, que são também as linhas de
problematização: A China expulsa; O Brasil recebe; Os sino-brasileiros emergem (a síntese
do processo). A metodologia consistiu inicialmente em pesquisa bibliográfica. Posteriormente,
houve coleta de dados secundários, oriundos do Museu da Imigração em São Paulo. O grosso
do material empírico consistiu em entrevistas com cinco chineses - dados qualitativos,
transcrição e análise (aplicação de questionários). Além disso, fez-se um levantamento
fotográfico e documental da presença chinesa em São Paulo, em pontos da cidade específicos.
A pesquisa iniciou em 2003 e o campo e entrevistas foram realizadas em 2006. Após este
período, estudou-se comunicão asiático-brasileira em redes sociais. Foi feita então a análise
de todos os materiais. Para o conceito de diáspora, foram usadas referências de Stuart Hall e
Adam McKeown. Na análise socioeconómica, o conceito Marxiano “exército industrial de
reserva” conta da presença de grandes contingentes populacionais circulando pelo mundo.
O mecanismo de pull e push entre populações e territórios é uma constrão utilizada por
Paul Singer e Herbert Klein para explicar o movimento populacional. Sobre a construção de
uma identidade brasileira que incluísse também asiáticos e seus descendentes, os trabalhos
de Jeffrey Lesser merecem destaque. Sobre a inserção de chineses na sociedade brasileira,
foram utilizadas teorias de Sigmund Freud e Eric Hobsbawn. O Brasil, pelo desenvolvimento
de seu mercado, torna-se polo de atração de pessoas do mundo todo, inclusive chineses.
Como colocado por entrevistados, o Brasil é visto como um país “em construção”. E hoje os
chineses têm um lugar na construção de uma identidade brasileira..
Palavras chave
Brasil; China; migração; diáspora; São Paulo
JANUS.NET, e-journal of International Relations
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Dossiê temático Perspectivas sobre a presença internacional da China - Dezembro 2022, pp. 19-37
A diaspora chinesa no Brasil: dispersão, mitologia da terra de origem e promessa de retorno
Daniel Bicudo Véras
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Abstract
This paper aims to provide an overview of the presence of Chinese in Brazil, who are estimated
to be about 300,000 in number. Based on the dialectical relationship between Brazil and
China, this research works with the following hypotheses, which are also the lines of
problematization: China expels; Brazil receives; Sino-Brazilians emerge (the synthesis of the
process). The methodology consisted initially of bibliographical research. Later on, secondary
data was collected from the Museu da Imigração in São Paulo. The bulk of the empirical
material consists of interviews with five Chinese individuals, providing qualitative data, a
transcription and an analysis (application of questionnaires). In addition, a photographic and
documentary survey of the Chinese presence in São Paulo at specific points in the city was
carried out. The research began in 2003, and the fieldwork and interviews were carried out in
2006. After this period, the author studied Asian-Brazilian communication in social networks.
An analysis of all the materials was then made. For the concept of diaspora, references from
Stuart Hall and Adam McKeown were used. In the socioeconomic analysis, the Marxian concept
"industrial reserve army" accounts for the presence of large population contingents moving
around the world. The pull and push mechanism between populations and territories is a
construct used by Paul Singer and Herbert Klein to explain population movement. Regarding
the construction of a Brazilian identity that would also include Asians and their descendants,
the works of Jeffrey Lesser are worth mentioning. Concerning the insertion of the Chinese into
Brazilian society, the theories by Sigmund Freud and Eric Hobsbawn were used. Brazil, due to
the development of its market, has become a pole of attraction for people from all over the
world, including the Chinese. As the interviewees said, Brazil is seen as a country "under
construction". And today the Chinese have a place in the construction of a Brazilian identity.
Keywords
Brazil; China; migration; diaspora; São Paulo
Como citar este artigo
Véras, Daniel Bicudo (2022). A diáspora chinesa no Brasil: dispersão, mitologia da terra de
origem e promessa de retorno. Janus.net, e-journal of international relations. VOL13 N2, TD1
Dossiê temático Perspectivas sobre a presença internacional da China, Dezembro 2022.
Consultado [em linha] em data da última consulta, https://doi.org/10.26619/1647-
7251.DT22.2
Artigo recebido em 30 de Abril de 2022 e aceite para publicação em 15 de Maio de 2022
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A diaspora chinesa no Brasil: dispersão, mitologia da terra de origem e promessa de retorno
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A DIÁSPORA CHINESA NO BRASIL: DISPERSÃO, MITOLOGIA DA
TERRA DE ORIGEM E PROMESSA DE RETORNO
DANIEL BICUDO VÉRAS
1. Introdução
Ressaltando a dimensão cultural do fenômeno migratório, o presente trabalho visa a
fornecer um panorama da presença de chineses no Brasil, estimados em 300.000, uma
relativamente pequena porcentagem da população brasileira, com mais de 200 milhões
de pessoas. Também uma pequena parcela da dispersão dos chineses pelo mundo,
estimados em mais de 35 milhões de pessoas.
A China é do Conselho de Segurança da ONU, e desde 2009, o maior parceiro comercial
do Brasil. Por estas razões, são cada vez mais frequentes estudos sobre a China do ponto
de vista de números, do comércio internacional, e também sobre desenvolvimento (no
sentido de experiências que podem ensinar o Brasil a vencer problemas históricos neste
quesito). Entretanto, no caso brasileiro ainda carência de estudos sobre a parte
cultural desta relação. A China está investindo seriamente em aumentar cursos e
departamentos de língua portuguesa e cultura brasileira, ao passo que o Brasil se
mantém estagnado na sua pesquisa sobre a China. O resultado ainda é o mútuo
desconhecimento entre os dois países. José Roberto Teixeira Leite (1999), Gylberto Freire
e alguns outros poucos pioneiros destacaram a influência chinesa no Brasil desde os
tempos coloniais, num intenso intercâmbio de pessoas, artes, costumes, espécies
animais e vegetais entre Brasil, África e Ásia promovido pelos portugueses. A partir dos
anos de 1970, surgiram mais estudos sobre a imigração chinesa no Brasil, como o de
Yang (1974), que é um trabalho seminal no Brasil.
Centros de pesquisa europeus e estadunidenses têm as suas próprias inquietações e
próprios interesses no estudo sobre a China. O Brasil ainda carece de uma perspectiva
própria, que contemple aos interesses brasileiros no estudo da China. Basicamente, falta
estabelecer uma conexão entre estas duas grandes regiões em desenvolvimento. O que
pretendemos adquirir aqui é esta perspectiva, ampliando o entendimento cultural, algo
que em muito pode auxiliar as relações bilaterais, melhorando o comércio e intercâmbios
que vão além do cultural.
Levando-se em consideração o conceito de exército industrial de reserva (Marx, s.d.:
730-749), forças de atração e repulsão de população entre regiões do planeta.
Obviamente, migrações o recursos para desenvolver a economia das regiões
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receptoras, trazendo força de trabalho e qualificações, sem falar no ganho trazido pela
diversidade cultural. Entretanto, diferentemente do capital que circula livremente pelo
planeta, as pessoas têm sua liberdade de circulação cerceada nas fronteiras. Isto resulta
em diversas crises de refugiados, sendo o campo o paradigma do espaço das fronteiras,
em que é naturalizada a privação de direitos de certos grupos sociais (Agamben, 2004:
79).
Os movimentos populacionais comunicam regiões, mesmo que os seus respectivos
Estados não participem ativamente ou alavanquem as ações. Se são do interesse de suas
classes dominantes, as ações ocorrerão (Singer, 1973: 38). Há regiões que têm excesso
de população, que não encontra ocupação por ter sido deixada de fora por processos
excludentes. Tais regiões são expulsoras de pessoas (pushing regions), sendo a Europa
e a Ásia da passagem do século XIX para o XX exemplos clássicos. Ao mesmo tempo,
regiões de vazio populacional, abundância de terra não-explorada e economias em
ascensão atraem força de trabalho (pulling regions), sendo todo o continente americano
da passagem do século XIX para o XX um exemplo. Levando em consideração tais
conceitos de pull e push, explorados pelo historiador Herbert Klein (2000: 13), aqui se
procura identificar as forças de repulsão e atração de população. Se na passagem do
século XIX para o XX, a Europa e a Ásia eram lugares de excedente populacional e as
Américas eram lugares de vazio demográfico, os emigrantes promovem um encontro que
busca suprir as necessidades econômicas das regiões em jogo
1
. Neste trabalho
especificamente, cabe analisar as condições chinesas que levam parte de sua população
a sair, e as condições atrativas do Brasil, em especial São Paulo, para o recebimento de
pessoas do mundo todo.
E mais interessante ainda para o presente trabalho é o produto deste processo: o
surgimento de uma comunidade que é sino-brasileira. Ao entrevistar membros desta
comunidade, procurou-se compreender fatores de pull e push, bem como a construção
desta comunidade, seus valores, tensões (internas e externas), e universo cultural. Daí
também a importância do conceito de diáspora.
Segundo o Instituto Sociocultural Brasil-China (Ibrachina), de São Paulo, há 300 mil
chineses no Brasil, correspondendo a 5% do total de imigrantes no país. Se a imigração
chinesa não é representativa dentro do Brasil, ficando atrás de grupos como portugueses,
espanhóis, italianos e japoneses, então por que estudar o tema? Se dentro da diáspora
chinesa, a parte brasileira é ainda bastante diminuta, então por que estudar o tema?
Dada a relevância das relações comerciais e diplomáticas entre Brasil e China, todos os
pontos de conexão que possam aproximar os dois países, minimizando o problema do
desconhecimento mútuo, são muito pertinentes. Ademais, é um grupo de imigração
contemporâneo, que ainda cresce no Brasil.
Tendo como base a relação dialética entre Brasil e China, a presente investigação
trabalha com as seguintes hipóteses:
1
Em sua vasta pesquisa sobre os processos migratórios de chineses rumo ao continente americano, Evelyn
Hu-DeHart destaca a América Latina como espaço privilegiado para a imigração chinesa. Estudando mais a
fundo o caso mexicano, a autora mostra como a região foi importante para receber chineses nos diversos
momentos de exclusão por parte dos Estados Unidos desde o século XIX (Hu-DeHart, 2013: 89).
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A China expulsa (push factors);
O Brasil recebe (pull factors);
Os sino-brasileiros emergem (a síntese do processo).
De certa forma refletindo a estrutura de hipóteses, além de considerar a perspectiva de
retorno que caracteriza uma diáspora, o trabalho se divide em sete partes: 1. Introdução;
2. Deixando a China; 3. Estabelecendo-se no Brasil; 4. Os retornados; 5. Conclusões; 6.
Imagens e a 7. Bibliografia.
A metodologia consistiu inicialmente em pesquisa bibliográfica, sobretudo sobre a
diáspora chinesa pelo mundo, e sobre a história das imigrações para o Brasil, porém
como temas separados, pois havia ainda poucos trabalhos a abordar os dois temas
juntos, ou seja, a imigração chinesa para o Brasil. Posteriormente, houve coleta de dados
secundários, oriundos do Museu da Imigração em São Paulo.
O grosso do material empírico consistiu em entrevistas com chineses - dados qualitativos,
transcrição e análise (aplicação de questionários) entrevistados livres para discorrer e
opinar. O que os entrevistados têm em comum é ter nascido na China, mas procurou-se
uma variedade de nero, grupo etário, origem (ter vindo da China Continental ou de
Taiwan, por exemplo), ocupações. Além disso, procedeu-se ao levantamento fotográfico
e documental da presença chinesa emo Paulo, em pontos da cidade específicos.
A pesquisa iniciou-se em 2003 para a confecção de tese de doutoramento, que foi
defendida em 2008. O campo e entrevistas foram realizadas em 2006. Após este período,
o pesquisador voltou-se para a comunicação asiático-brasileira em redes sociais, como
YouTube, Facebook e Instagram nos últimos anos. Foi feita então a análise de todos os
materiais.
Para o conceito de diáspora, foram usadas referências de Stuart Hall (2003: 25-47) e
Adam McKeown (1999: 308), entre outros. É um conceito central nesta investigação, que
só pode ser chamado como tal quando existem estas três dimensões:
Dispersão física pelo mundo (afinal, a palavra vem do grego dia speiro, que significa
“o espalhar das sementes”);
A criação de uma mitologia e narrativas sobre a terra de origem;
Promessa de retorno.
Outro autor que ressalta a promessa de retorno no processo migratório é Abdelmalek
Sayad (1998: 176).
Na parte social-econômica, o conceito de Karl Marx (s.d.: 730-749) “exército industrial
de reserva” conta da presença de grandes contingentes populacionais circulando pelo
mundo, basicamente por razões econômicas. Entretanto, quando se pensa deslocamento
por falta de segurança, logo se pensa em Giorgio Agamben (2004). A vida da
contemporaneidade é a vida na fronteira, questão abordada por Homi Bhabha (2003:
19). o referido mecanismo de pull e push entre populações e territórios é uma
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construção utilizada por Paul Singer (1973) e Herbert Klein (2000) para explicar o
movimento populacional.
Sobre a construção de uma identidade brasileira que inclsse também asiáticos e seus
descendentes, os trabalhos de Jeffrey Lesser (2001: 18-21; 2007: 189) merecem
destaque
2
. Sobre a inserção de chineses na sociedade brasileira, teorias de Sigmund
Freud (1961), Eric Hobsbawn (1975) e outros que ajudam a lidar com a complexidade
da questão
3
.
O estudo permite identificar uma intrínseca conexão entre processos econômicos,
políticos e culturais, sendo o Brasil palco de rápidas e intensas transformações, refletindo
tendências históricas e criando uma singular realidade. Ao ouvir a comunidade sino-
brasileira e documentar a sua presença na cidade de o Paulo, o trabalho procura
sistematizar informações de um assunto relevante para as relações internacionais do
Brasil, para o autoconhecimento de suas origens, além de se constituir em ponto de
partida para um terreno ainda inexplorado e cheio de possibilidades para expandir. O
que resultou foi o registro de fala dos membros de tal comunidade, e um entendimento
do Brasil como uma parte deste processo