OBSERVARE
Universidade Autónoma de Lisboa
e-ISSN: 1647-7251
Vol. 13, Nº. 2 (Novembro 2022-Abril 2023)
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VIAGEM NA BELLE ÉPOQUE: OS PORTUGUESES E O ESTRANGEIRO
MARIA JOÃO CASTRO
mariajoaocastro@fcsh.unl.pt
Doutorada em História da Arte Contemporânea e investigadora integrada do Centro de
Humanidades (CHAM) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de
Lisboa (NOVA/FCSH, Portugal), centra os seus domínios de especialização na História da Cultura
Contemporânea, infletindo na ligação da Arte com o Poder quer em relação à Viagem e aos
Estudos (Pós-)Coloniais, quer no que concerne ao Turismo. É pós-doc com bolsa da FCT no
projeto intitulado “ArTravel. Viagem e Arte Colonial na Cultura Contemporânea”.
Resumo
O grande movimento de viagem de lazer ocorrido no século XIX chegou tarde a Portugal,
muito por influência das vicissitudes geopolíticas da primeira metade de Oitocentos e de que
se destaca as invasões francesas e o consequente refúgio da corte portuguesa para o Brasil,
bem como a guerra civil liberal subsequente. Nesta atmosfera cambiante, a dimensão do
estrangeiro tornou-se, para os nacionais, num imperativo mais desejado e cantado do que
vivido, pelo que, quase no fim do século, se reuniam as condições necessárias para alguns
portugueses fazerem as malas e partirem além-fronteiras. Daí os seus testemunhos
(literários, artísticos) constituírem registos preciosos de um tempo icónico: a Belle Époque.
Este artigo propõe uma reflexão transversal assente no legado deixado por alguns dos
portugueses viajantes entre o final de século XIX e o início do século XX cruzando um
fenómeno transversal à sociedade ocidental em mutação numa consideração da viagem como
elemento de modernidade. Nesse sentido, e reunindo um conjunto de nomes da cultura
portuguesa que experienciaram a saída para o estrangeiro, pretende-se perspetivar uma
temática de mundividência autoral herdeira da viagem da Expansão Portuguesa cuja
genealogia moldou o globo a uma escala planetária e de que o século XXI é herdeiro.
Palavras-chave
Fin-de-siècle, Turismo, Exotismo, Colonialismo, Relatos, Pintura
Abstract
The great leisure travel movement that occurred in the 19th century came late to Portugal,
largely due to the influence of the geo-political vicissitudes of the first half of the 19th century,
particularly the French invasions and the consequent refuge of the Portuguese court to Brazil,
as well as the subsequent liberal civil war. In this changing atmosphere, the foreign dimension
became, for Portuguese nationals, an imperative that was more desired and sung about than
experienced, so that it was only towards the end of the century that the necessary conditions
were met for some Portuguese to pack their bags and set off across borders. Hence, their
testimonies (literary and artistic) are precious records of an iconic time: the Belle Époque.
This article proposes a transversal reflection based on the legacy left by some of the
Portuguese travellers between the end of the 19th century and the beginning of the 20th
century, crossing a phenomenon that is transversal to western society in mutation in a
consideration of travel as an element of modernity. In this sense, and bringing together a set
of names of Portuguese culture who experienced the journey abroad, it is intended to
perspective a thematic of authorial worldview heir to the journey of the Portuguese Expansion
whose genealogy shaped the globe on a planetary scale and which the twenty-first century is
heir to.
Keywords
Fin-de-siècle; Tourism; Exoticism; Colonialism; Reports; Painting
JANUS.NET, e-journal of International Relations
e-ISSN: 1647-7251
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Viagem na Belle Époque: os portugueses e o estrangeiro
Maria João Castro
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Como citar este artigo
Castro, Maria João (2022). Viagem na Belle Époque: os portugueses e o estrangeiro. Janus.net, e-
journal of international relations, Vol13 N2, Novembro 2022-Abril 2023. Consultado [em linha] em
data da última consulta, https://doi.org/10.26619/1647-7251.13.2.14
Artigo recebido em 22 de Fevereiro de 2022, aceite para publicação em 09 de Março de 2022
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VIAGEM NA BELLE ÉPOQUE:
OS PORTUGUESES E O ESTRANGEIRO
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MARIA JOÃO CASTRO
1. Enquadramento histórico
Todos os retratos que são pintados com sentimento
são retratos do artista e não do modelo.
Este (o modelo) é apenas o acaso, a ocasião.
Não é ele que o pintor revela;
é antes o pintor que, na tela, se revela a si próprio.
Basil Hallward em Dorian Gray de Oscar Wilde
Sabe-se que variadíssimos estrangeiros visitaram Portugal desde finais do século XVIII:
William Beckford (1787-9), James Murphy (1789-90) ou Carl Ruders (1798-1802). Com
as invasões francesas dá-se um hiato no fluxo de viajantes europeus para Portugal,
condição superada após o respetivo restabelecimento das relações diplomáticas e de
que são exemplos as visitas de Heinrich Link (1808), Lord Byron (1809), Dora
Wordsworth (1846) e, mais tarde, Catherine Hannah Jackson (1873) ou Maria Rattazzi
(1876). Contudo, sabe-se menos do curso inverso, ou seja, dos portugueses que fizeram
a viagem para o estrangeiro visitando e experienciando uma Europa e um mundo
frequentemente díspar da realidade portuguesa.
Sabe-se também que, contrariamente ao viajante diletante do Grand Tour
2
, o viajante
romântico procurou privilegiar e obter uma experiência interior decisiva, consubstanciada
na procura do outro, do desconhecido e do diferente e não tanto nas culturas herdeiras
1
Agradecimentos a: Arquivo Municipal de Lisboa; Arquivo Nacional Torre do Tombo; Biblioteca Nacional de
Portugal; Museu Carlos Machado, Ponta Delgada, S. Miguel, Açores; .Museu Nacional Soares dos Reis, Porto
2
Movimento iniciado nos finais do século XVII (e plenamente experienciado durante os séculos XVIII e XIX),
consistiu numa viagem final de educação, de complemento e confirmação prático- visual das matérias
instruídas a nível académico. Feita inicialmente por jovens aristocratas ingleses (gentry”) e depois
difundida pela classe média burguesa saída da Revolução Industrial, tinha como destino a Europa
(continental) e o seu legado de Antiguidade Clássica, daí incidir em destinos como a Itália e a Grécia
alargando-se depois aos demais centros culturais europeus, como Paris. O seu carácter, primeiro avulso
(século XVIIII) depois de forma sistemática (século XIX), fez com que se tornasse numa prática e numa
moda repetida e plasmada em distintos registos escritos e imagéticos, frequentemente acompanhados de
desenhos e em seguida da fotografia.
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da Antiguidade Clássica e do Renascimento. Era toda uma nova sensibilidade adquirida,
um novo despertar idealizado a partir de uma origem tripartida:
a) O progresso técnico saído da Revolução Industrial que as exposições universais
difundiam;
b) Uma “era” imperial europeia a promover a exploração das suas possessões d’além-
mar;
c) Uma literatura e pintura que mostrava pela primeira vez, destinos longínquos e
exóticos instituindo, entre outras, a moda do Orientalismo.
3
Se a primeira provocou uma melhoria nos meios de transporte e estruturas de
acolhimento locais, a segunda fez com que uma elite metropolitana mergulhasse no
universo colonial ao passo que a terceira estimulou o desejo de empreender a viagem
por pura fruição e experimentação de um universo ainda mítico e ignoto. É neste tempo
único que se assiste não só a uma proliferação de viagens científicas (especialmente de
naturalistas), como de expedições com carácter exploratório saídas da Conferência de
Berlim de 1884-85 e da consequente “Partilha de África” (como foi o caso de David
Livingstone ou dos portugueses Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens e Serpa Pinto).
Recorrentemente, este tipo de deslocações incorporou nas suas comitivas artistas e
escritores que, no regresso, produziram obras que permitiam visualizar, pela primeira
vez, essas terras imaginadas na multissecularidade europeia. E foi assim que a imagem
do “outro” se foi construindo e estruturando desenvolvendo-se numa fase posterior com
a experimentação efetiva desses destinos por parte primeiro por uma elite de aristocratas
(diplomatas, etc.) depois secundada pela nova burguesia saída da Revolução Industrial
(que dispunha agora de tempo e dinheiro e ansiava imitar a elite nobre) e, já no século
XX, reiterada pela população assalariada e de que o turismo de massas é herdeiro.
Verdadeiramente, a dinâmica do culto da evasão nos finais do século XIX e primórdios
do XX fez com que as práticas de um eu que olha o “outro” implicassem a construção de
uma alteridade e identidade próprias daí as suas consequências terem sido
frequentemente desiguais mas não de somenos importância.
Por outro lado, as inovações tecnológicas inspiraram novas perceções da realidade que
cada nação cristalizou à sua maneira numa história a várias velocidades. No que diz
respeito aos viandantes portugueses da Belle Époque período balizado entre o último
quartel do século XIX e a eclosão da Primeira Guerra Mundial estes seguiram os seus
congéneres europeus na procura de uma mundividência externa se bem que numa
prática pouco frequente e inconsequente.
Numa altura em que a viagem ainda não era ligeira e acarretava consigo mais
desconforto e imprevistos do suposto à partida, um conjunto raro de intrépidos
portugueses propôs-se a fazer da deslocação ao estrangeiro um marco nas suas vidas,
trespassando para a sociedade e cultura os ecos e derivas de tal empreendimento.
3
Note-se que o Oriente Oitocentista compreendia todos os territórios que não fossem a Europa conhecida de
então: África, Levante, Médio e Extremo Oriente, assim como as culturas da América.
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2. Metodologia
De acordo com Onfray (2009), o estudo da viagem contemporânea pode ser melhor
compreendido e perspetivado se agrupado em núcleos sociais e/ou profissionais, uma
vez que essa estruturação oferece uma maior perceção das características e derivas
tentaculares de cada um.
Neste contexto, e por necessidade de delimitação da pesquisa, o presente capítulo
circunscreve-se a uma amostragem de categorias sociais/profissionais que se
consideraram significativas tendo em conta um maior impacto na sociedade portuguesa
da época. Esta abordagem parcial não deixa de contemplar uma perspetiva integrada e
um olhar abrangente da dinâmica viandante nacional além-fronteira, perfazendo um
quadro cujas componentes se articulam entre si. A justificação de tal escolha assenta
no facto de a estratificação social europeia vigente durante a Belle Époque ter
permitido condensar em cada classe, as suas aspirações, concretizações e derivas que
a definiu sendo um espelho de uma mundividência cujas particularidades caracterizam
as sociedades onde se inserem. Ora a portuguesa não foi exceção e, ainda que pouco
regular, as suas deslocações ao estrangeiro revestiram-se de singularidades
significativas que interessa revelar.
Outro aspeto central da metodologia utilizada no presente estudo é o de se encontrar
balizado numa cronologia transversal europeia, ou seja, de relação com os territórios
europeus mais próximos tendo em conta a geopolítica à época, nomeadamente no que
concerne aos impérios ultramarinos do Velho Continente e à visitação das suas colónias
de além-mar.
A última parte do artigo avança com algumas reflexões e considerações perspetivando
a relevância e impacto das viagens nacionais ao estrangeiro durante o período
estudado correlacionando a vivência nacional com a internacional.
3. Corpus
Monarquia
Começando pelo topo da hierarquia social a corte a viagem em 1903 da rainha D.
Amélia ao Egito foi um catalisador para que uma certa aristocracia lhe seguisse no
encalço (nobre e militar) tendo sido posteriormente alargada ao universo cultural-
artístico da sociedade intelectual de então (escritores e artistas). A partir do Álbum
fotográfico
4
da viagem da rainha pode-se ter uma noção precisa não do itinerário régio
como auferir das relações entre Ocidente/Oriente, arqueologia e colonialismo,
constituindo um testemunho singular da viagem enquanto fenómeno cultural e elitista
4
O álbum documenta a viagem realizada pela rainha D. Amélia, o Príncipe D. Luís e o Infante D. Manuel,
entre 28 de Fevereiro e 28 de Abril de 1903. O itinerário tinha como destino final o Cairo, com passagem
por alguns dos principais portos do Mediterrâneo como Cádis, Gibraltar, Argélia, Túnis, Malta e Alexandria.
Na viagem de regresso, o iate aportou em Nápoles e Capri, para uma visita às ruínas de Pompeia. O álbum
é constituído, na sua maioria, por fotografias tiradas pelo Príncipe D. Luís, pelo pintor Casanova e ainda
pelo Infante D. Manuel. Organizado de forma cronológica e geográfica, o documento apresenta um total
236 fotografias, que foram criteriosamente montadas e distribuídas por 36 páginas, acompanhadas de
legendas manuscritas pela rainha, que identificam os registos e os autores dos mesmos.