OBSERVARE

Universidade Autónoma de Lisboa

ISSN: 1647-7251

Vol. 1, n.º 1 (Outono 2010), pp. 126-127

Recensão Crítica

Valladares, Rafael (2010). A conquista de Lisboa — Violência militar e comunidade política em Portugal, 1578-1583. Lisboa: Texto Editores: 332 pp. ISBN 978-972-47-4111-6 (Tradução Manuel Gonçalves)

por João Maria Mendes

Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa. Professor convidado na Universidade Autónoma de Lisboa. Professor na Escola Superior de Teatro de Cinema, onde é presidente da Comissão Técnico-Científica de Cinema e coordenador do Mestrado em Desenvolvimento de Projecto Cinematográfico.

Investigador integrado no Centro de Investigação de Artes e Comunicação (CIAC). Colaborador do OBSERVARE.

Rafael Valladares, investigador no Instituto de Historia del Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CSIC), analisa neste ensaio o modo como, na sequência da batalha de Alcácer-Quibir, Felipe II preparou e alcançou a “união dinástica hispano- portuguesa”, jogando em simultâneo nos tabuleiros político-diplomático e no do direito, mas sem nunca descurar o uso da força militar.

O comando dessa força militar de 18.000 homens foi entregue ao Duque de Alba, e a campanha de ocupação provocou milhares de mortos e feridos — diz o autor. Felipe II admitiria mais tarde, referindo-se à sua campanha de três anos (1580-1583) e à anexação de Portugal: “Herdei-o, comprei-o e conquistei-o”.

Romero de Magalhães, citado por Valladares, diz, sobre o apagamento português da memória dessa guerra: “A recordação da ocupação violenta do reino (...) foi esquecida ou atenuada”. E Valladares generaliza: “Qualquer sociedade castigada pela violência militar tende a omitir e, portanto, a apagar, toda a referência ao sofrimento passado”, recusando-se a narrar essa parte da sua história e denegando-a.

Uma das fontes que Valladares cita recorrentemente na sua investigação é a controversa Historia dell’unione del Regno di Portogallo alla Corona de Castiglia, de Girolamo Franchi Connestagio, publicado pela primeira vez em Génova em 1585, e que conheceu, na época, sucessivas traduções em diversas línguas europeias, tornando-se, como diz o autor, numa “espécie de bíblia dos factos de 1580”. A obra de Connestagio, frequentemente avaliada como demasiado favorável aos Habsburgos ou aos “Áustrias”, nunca conheceu, até hoje, tradução e edição portuguesa. Outra fonte, inevitável, é a Historia de Felipe II, Rey de España, de Luis Cabrera de Córdoba, publicada em Madrid em 1619.

JANUS.NET, e-journal of International Relations

ISSN: 1647-7251

Vol. 1, n.º 1 (Outono 2010), pp. 126-127

Recensão Crítica

João Maria Mendes

Mas as investigações de Valladares estenderam-se ao Arquivo Geral de Simancas, à Fundação Casa de Alba, aos arquivos históricos do Ministério (espanhol) dos Assuntos Externos, à Colecção de Documentos Inéditos para a História de Espanha, ao Archivium Romanum Societatis Iesus, à Biblioteca Apostólica Vaticana, e, em Lisboa, à Biblioteca Nacional e à da Ajuda. O novo contacto com os acervos documentais destas instituições, bem como o cotejo das informações neles recolhidas com a restante bibliografia disponível sobre o “Portugal habsburgo”, dão à investigação de Valladares a dimensão de um olhar mais informado e mais compreensivo sobre a campanha de Felipe II, sobre a natureza das resistências que enfrentou e sobre o modo como as venceu.

O assalto a Lisboa e a batalha de Alcântara, o sentimento de orfandade e abandono de vastos corpos sociais, a crença de Felipe II em que a desagregação da comunidade política havia de levar os portugueses a “matarem-se entre eles” e o lento surgimento de uma resistência, sobretudo popular, à ocupação filipina, ganham novo rosto com este ensaio de Valladares, atento à morosa reconstituição de uma identidade comunitária no país ocupado.

Como citar esta Recensão Crítica

Mendes, João Maria (2010). Recensão Crítica de Valladares, Rafael (2010). A conquista de Lisboa — Violência militar e comunidade política em Portugal, 1578-1583. Lisboa: Texto Editores: 332 pp. ISBN 978-972-47-4111-6 (Tradução Manuel Gonçalves), JANUS.NET e- journal of International Relations, N.º 1, Outono 2010. Consultado [online] em data da última consulta, observare.ual.pt/janus.net/pt_vol1_n1_rec2

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