OBSERVARE

Universidade Autónoma de Lisboa

ISSN: 1647-7251

Vol. 1, n.º 1 (Outono 2010), pp. 87-97

TELEVISÕES GLOBAIS, HISTÓRIA ÚNICA

Francisco Rui Cádima

Professor Associado com Agregação do Departamento de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa.

ÉCoordenador do Mestrado de Novos Media e Práticas Web, Coordenador do Curso de Licenciatura e membro da Comissão Executiva do DCC-FCSH.

Éinvestigador do CIMJ, Centro de Investigação Media e Jornalismo.

Resumo

Vivemos uma era complexa, ainda difusa, de transição dos sistemas de fragmentação audiovisual, específicos do cabo e dos satélites, para os sistemas de hiperfragmentação de ambiente web. Neste processo as televisões transnacionais estão em relativa perda, mas por enquanto ainda detêm canais de distribuição poderosos nas principais áreas estratégias do globo, com excepção daquelas onde, por motivos de censura ou pela ordem totalitária, nem sempre podem penetrar. Trata-se de um modelo com diversas condicionantes, quer à partida, quer à chegada, o que configura um sistema de comunicação crítico, cuja subordinação a interesses locais e/ou globais afecta o sua diversidade narrativa. É, finalmente, um modelo em regra marcado por regularidades discursivas estranhas ao pluralismo político, cultural e geográfico, e assim mais próximo daquilo a que podemos chamar a «história única» do que de um sistema aberto, plural e participado.

Palavras-chave

Democracia; Geopolítica; Jornalismo; Local/Global; Televisão Transfronteira

Como citar este artigo

Cádima, Francisco Rui (2010) "Televisões globais; História única". JANUS.NET e-journal of International Relations, N.º 1, Outono 2010. Consultado [online] em data da última consulta, observare.ual.pt/janus.net/pt_vol1_n1_art7

Artigo recebido em Maio de 2010 e aceite para publicação em Setembro de 2010

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Televisões globais; História única

Francisco Rui Cádima

TELEVISÕES GLOBAIS, HISTÓRIA ÚNICA

Francisco Rui Cádima

«(...) Devido a escritores como Chinua Achebe e Camara Laye eu passei por uma mudança mental na minha percepção da literatura. Apercebi-me que pessoas como eu, raparigas com a pele cor de chocolate, cujo cabelo estranho não podia formar rabos-de-cavalo, também podiam existir na literatura. Comecei a escrever sobre coisas que reconhecia.»

Chimamanda Adichi

Tal como sucedeu com Chimamanda Adichi, que só começou a ter uma visão mais próxima da sua Nigéria natal quando começou a ler literatura africana - nomeadamente Chinua Achebe e Camara Laye - assim o mundo muçulmano só começou a reconhecer melhor a sua própria imagem televisiva e a sua própria história recente após a criação da rede do Quatar, a Al Jazeera. No entanto, não se pode dizer que, nessa matéria, de uma experiência diversa, pletórica e definitiva se trate.

A Al Jazeera, que significa «a ilha» em árabe, arranca a 1 de Novembro de 1996, pretendendo ser uma espécie de CNN para o mundo islâmico. Contudo, só após o 11 de Setembro começa a ser mais conhecida no Ocidente, mas quase nunca pelas boas razões ocidentais. O novo mensageiro narrava os factos em função desse «outro», em tempos dito «infiel», e tanto bastava para que o Norte determinasse a morte desse alienígena. Bush e Blair ter-se-ão entendido nessa matéria, segundo relatou Jeremy Scahill na The Nation.1 A rede do Quatar tornou-se assim a voz desse «outro» e do «mal». Mas também é verdade que a própria comunicação estratégica israelita, sempre que necessita, não deixa de ocupar esse «demonizado» espaço. A «ilha» não deixa, pois, de realizar a metáfora, sendo nesta caso uma porção de discurso rodeado de mensagem por todos os lados.

Essa mensagem, ou «massagem», como preferia Marshall McLuhan, está aí, impante, desde a era da fragmentação do modelo audiovisual europeu e norte-americano - que é praticamente simultâneo e corresponde ao fim da televisão generalista clássica e à multiplicidade da oferta de canais via satélite e cabo. Mas agora, no final da primeira

1Jeremy Scahill, «The War on Al Jazeera», The Nation online, December 1, 2005. [Em linha] [Consultado em 2 de Maio de 2010], Disponível em: http://www.thenation.com/doc/20051219/scahill. This article appeared in the December 19, 2005 edition of The Nation.

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década do novo século, a esta era de fragmentação corresponde um tempo de hiperfragmentação dos sistemas televisivos, que na Europa se aproxima dos 10 mil canais de televisão, entre generalistas, cabo, satélite, tv's locais, web tv's, mobile e outras. A questão é que a diversidade da oferta e a qualidade dos conteúdos não cresce proporcionalmente à progressão exponencial do número de canais e plataformas. Pelo contrário: ter mais canais significa, tendencialmente, redifusão constante dos mesmos conteúdos ou de conteúdos em tudo idênticos, mas sobretudo uma contínua reciclagem da mensagem do centro para pacificar, normalizar, ou pelo menos consensualizar, em torno de um plano geral comum, a periferia. O que farão então de diferente, de diverso, os grandes canais internacionais constituídos em torno de objectivos comuns e sobre estratégias de internacionalização e de disseminação linguística e cultural, como a BBC, a RTPi, a CNN e outras? E que real alternativa local/global constituem essas novas «ilhas» como a Al-Jazeera e Al-Arabiya, ou mesmo a BBC Arabic Television, para os países do norte de África e do Médio Oriente?

Um relatório produzido por Deborah Horan2, no âmbito do CIMA - Center for International Media Assistance, vem dizer-nos que, de uma maneira geral, os media no Médio Oriente e no Norte da África são actualmente mais livres do que o eram há dez anos atrás. Com a explosão de canais que se registou na primeira década do século, verificou-se, inclusive na área específica da informação, o aparecimento de canais árabes muito atentos à sua própria realidade. Mesmo no plano do entretenimento, significativas alterações foram sendo introduzidas pelos novos canais, o que levou os canais oficiais locais, em boa parte dos casos, a serem secundarizados pela audiência relativamente à nova oferta transfronteira. Mas a verdade é que não podemos falar em grandes mudanças nesta matéria dado que sobre o sistema de media local se mantém, apesar de tudo, uma mão forte do poder para além dessa «abertura» trazida pelos canais transnacionais. Até porque são exactamente canais como a Al-Jazeera e a Al- Arabiya que contratam os melhores jornalistas locais, fazendo aumentar nitidamente a diferença de produto final entre os canais por satélites a as estações sob controlo governamental. Nessa perspectiva, «apenas três países árabes foram classificados como "parcialmente livres" pela Freedom House no seu índice de 2009 sobre a Liberdade de Imprensa, o resto permaneceu "não livre". (...) Dado que a maioria dos países árabes não são democráticos, mesmo que a cobertura mediática de uma questão particular possa incitar as pessoas à mudança, há poucas, ou mesmo nenhumas saídas políticas para fazer a mudança acontecer. No entanto, quanto maior for o acesso a notícias mais confiáveis mais possibilidade há de fazer avançar a causa da democracia (...)».3

Local/Global

Éum facto que não pode haver globalização sem os media e também, obviamente, sem os novos media e as redes de comunicações. Sendo os sistemas de media centrais no processo da globalização, é certo que boa parte das teorias da área das ciências da comunicação, das teorias críticas às do «imperialismo cultural», têm procurado ver o

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Deborah Horan, Shifting Sands: The Impact of Satellite TV on Media in the Arab World. CIMA, Washington, D.C., March 29, 2010. A Report to the Center for International Media Assistance at the National Endowment for Democracy. [Em linha], Disponível em: http://cima.ned.org/wp-ontent/uploads/2010/03/CIMA-Arab_Satellite_TV-Report.pdf

Deborah Horan, op. cit., pp. 4-6.

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fenómeno como um processo de homogeneização, mas também é certo que o problema não pode ser reduzido a uma polémica entre os cépticos e os neoliberais ou outros adeptos da globalização. Como dizia Appadurai (2004: 32) «globalização não implica necessariamente ou sequer frequentemente homogeneização ou americanização». As questões são, naturalmente, mais complexas, havendo argumentos fortes, quer nas teorias críticas, quer também nas perspectivas mais favoráveis, ou seja, nas teses da hibridez cultural, dos estudos de audiência e de recepção, da cosmopolitan social democracy, da diversidade, da re-localização (Movius, 2010: 6-18), do construtivismo, etc. Num outro registo, mais antropológico, poder-se-ia falar das ambivalências das novas tecnologias e do tema do digital divide, ou das múltiplas identidades e das fantasias identitárias referidas por Appadurai, dos nossos próprios «outros», que emergem nos novos contextos multiculturais também eles com as suas raízes nos novos processos globais, nos fluxos culturais globais, sendo certo que as novas «mediapaisagens» estão já desterritorializadas e disseminam informação, acontecimentos e imagens através do complexo, embora centralizado sistema de media global: «Estas imagens encerram muitas inflexões complicadas, conforme o seu género (documentário ou diversão), as suas ferramentas (electrónicas ou pré-electrónicas), os seus públicos (local, nacional, transnacional) e os interesses daqueles que as detêm e controlam. O aspecto mais importante destas mediapaisagens

éque fornecem (...) vastos e complexos repertórios de imagens, narrativas e etnopaisagens a espectadores de todo o mundo, e nelas estão profundamente misturados o mundo da mercadoria e o mundo das notícias e da política» (Appadurai, 2004: 53-54). Reconhecendo, com Appadurai, que a globalização da cultura não é exactamente a mesma coisa que a sua homogeneização, é um facto que o global não se constrói sem essa pulsão negativa, por assim dizer, levando a que a principal característica da política no plano global seja hoje «a política do mútuo esforço da semelhança e da diferença para se canibalizarem reciprocamente, assim proclamando o saque vitorioso das ideias gémeas do Iluminismo, o universal triunfalista e o particular resiliente» (Appadurai, 2004: 63).

Outros preferem manter uma interpretação crítica do actual modelo, considerando-se fundamentalmente preocupados com os aspectos negativos da globalização. É o caso de Zygmunt Bauman, que refere que se, por um lado, os fabricantes e manipuladores de símbolos são cada vez mais agressivos e «extraterritoriais», por outro, verifica-se um enfraquecimento das soberanias localmente circunscritas: «Nosotros podríamos profetizar que, si nada la refrena o la domina, nuestra globalización negativa – y su modo alternativo de desproveer de su seguridad a los que son libres y de ofrecer seguridad en forma de falta de libertad – hace ineludible la catástrofe» (Bauman, 2007: 227).

A verdade é que mesmo no campo oposto, entre o pensamento liberal, também se encontram argumentos fortemente críticos. Veja-se o caso do alemão Max Otte que vê na actual sociedade de informação uma «economia da desinformação» dominante, um sistema de opacidades, de pseudo-acontecimentos e de ruído mediático, enfim, como defende, uma nova sociedade feudal submissa ao capitalismo predador, uma experiência democrática sob sequestro, para além da crescente debilidade das instâncias políticas subordinadas aos grupos de pressão económica: «El periodismo independiente ha caído en una crisis cada vez más profunda. Las redacciones agradecen las opiniones prefabricadas que les hacen llegar los departamientos de

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relaciones públicas de las empresas y de los ministerios, y así se cierra el círculo de las fuerzas motrices de la sociedad de la desinformación (...). Los medios – considerados desde hace tiempo como «cuarto poder» crítico (!) junto al legislativo, el ejecutivo y el judicial – se han convertido como los anteriores en puro multiplicador de la desinformación» (Otte, 2010: 39-40). Nada que não se saiba... Ou não terão sido os media globais também responsáveis pelo inflacionamento dramático das múltiplas crises da década, como a bolha dot.com, as mentiras sobre o Iraque, a bolha imobiliária, o crédito fácil, os produtos tóxicos, etc., etc.? Não esquecendo outras crises, como a climática, a crise do paradigma do progresso, a crença na sociedade de consumo e da abundância, etc. Mas sobre essa decisiva fractura cultural e os esgotados modelos da gratificação diferida, hoje, no novo contexto da comunicação instantânea à escala global e sob o espectro desse «primeiro Estado» em que se consagrou o domínio do capital impaciente, é de facto de uma outra crise que se trata, a do «triunfo da superficialidade no trabalho, nas escolas e na política», como refere Richard Sennett (2006: 133): «a nossa página nova talvez seja a revolta conta esta cultura debilitada».

Esta ordem do superficial que passa pela informação global, atingiu há muito a própria dimensão cultural do fenómeno televisivo. O exemplo limite é o do mercado ibero- americano, onde o exemplo do caso português não deixa de ser deprimente. A ficção de fluxo no espaço ibero-americano não escapa, portanto, ao modelo global de uma certa homogeneização cultural. Segundo Lorenzo Vilches, a uniformização dos conteúdos parece ser a regra da indústria televisiva, sendo certo que esse tipo de produção específica não é estranho ao actual processo de mundialização, caracterizando-se pelos seguintes aspectos: «i) a uniformização dos conteúdos via adaptação de formatos da ficção nacional e ibero-americana; ii) a confirmação de que o principio económico é um princípio ordenador nesse processo; iii) uma vez comprovada a decadência ou a debilidade do sector público (...) o mercado tem a prerrogativa em todas as decisões sobre formas e conteúdos e iv) a constatação de uma filosofia mundializadora, incipiente e de magnitude desigual, no conjunto das indústrias nacionais de ficção ibero-americana diante dos mercados internacionais.» (Lopes e Vilches, 2008: 23-24). No mesmo estudo refere-se que há também, cada vez mais, uma menor diferenciação de consumo e géneros no contexto do mercado ibero- americano, uma grande concentração de novelas e também de séries no horário nobre, não havendo sequer grande diferenciação entre a oferta pública e privada nestes mercados. Deste estudo empírico retira-se também algo específico do caso português (Cádima, 2009) que não deixa de nos fazer pensar seriamente sobre os efeitos de um modelo caracteristicamente terceiro-mundista na nossa televisão, sem qualquer paralelo na Europa: «Portugal é o país que mais oferece ficção nacional de estreia (leia- se: novela) em horário nocturno (32%)»4 Neste sentido pode dizer-se que também em matéria de regulação europeia estamos perante um claro défice de acompanhamento deste tipo de questões (Cádima, 2007).

4Maria Immacolata Vassallo de Lopes e Lorenzo Vilches (coords.), Anuário Obitel 2008 - Mercados globais, histórias nacionais, Rio de Janeiro: GloboUniversidade, 2008: 35-36. Leia-se nesta «ficção nacional» sobretudo novela, o que não deixa de ser uma marca negativa, tendo sobretudo em consideração que este é um estudo feito maioritariamente em países da América Latina, a saber: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México, Peru, e ainda Espanha e Estados Unidos (televisão em castelhano).

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RTP Internacional

No início de 2010 o deputado socialista Paulo Pisco questionava no Parlamento a prática do serviço público de televisão, através de um requerimento sobre a programação da RTPi e da RTP África. Considerava não haver, no caso da RTPi «um jornalismo de e para as comunidades, nem tão pouco é visível a promoção e reconhecimento dos muitos valores que existem nas comunidades». Tão pouco o canal público conseguia suscitar «o interesse das novas gerações de portugueses espalhados pelo mundo», faltando «a dimensão cívica e política fundamental para a afirmação das nossas comunidades».5 Em relação à RTP África reconhecia ainda não existir «uma verdadeira promoção da cooperação e dos laços históricos e culturais» entre Portugal e os países africanos de língua portuguesa.

ARTPi surge a 10 de Junho de 1992, então apenas dirigida à Europa com uma emissão de apenas seis horas. Em 1997 surge a RTP África. Actualmente a RTPi é uma rede global, está presente em diversos sistemas digitais, no cabo e noutras plataformas, atingindo uma audiência de cerca de 20 milhões de espectadores, mas sempre muito criticada pelo esquecimento do pulsar das comunidades propriamente ditas, pela pouca expressão da herança cultural portuguesa, à revelia do próprio contrato de concessão, e pela difícil coabitação com países onde há claros défice de pluralismo. Em 1998 surge a SIC Internacional e em 2010 a ERC aprova o projecto TVI Internacional.

Depois das grandes fases de diáspora dos portugueses até aos anos 60, o aparecimento de um canal internacional da cultura portuguesa três décadas mais tarde peca desde logo por clamoroso atraso. Daí que tivessem que ser os meios locais, muitas das vezes promovidos pelas próprias comunidades portuguesas, nomeadamente em França, a exercer desde logo essa função tão adiada pelo operador público português. Recorde-se as emissões de rádio de Jorge Reis na estação pública ORTF (1966), as famosas rádios livres, os programas em português na RFI, a emissão de televisão Mosaïques (da FR3, 1976-1987), etc. Mais próximo de nós surge o canal CLP TV (2006-2009), um projecto desenvolvido pela comunidade portuguesa, infelizmente falido, e surge também a Lusopress.tv, um projecto de web tv que pelo facto de ser menos oneroso poderá ter assim garantido um outro futuro no novo modelo de comunicação em ambiente digital.

Sobre muitos destes temas surgia entretanto a obra Les Portugais de France face à leur télévision. Médias, migrations et enjeux identitaires, de Manuel Antunes da Cunha6. Trata-se de um aprofundado estudo sobre a diáspora portuguesa e sobre o sistema de media que a envolve, nomeadamente no caso francês e em particular sobre a RTPi, que, como o autor refere, o começam por reenquadrar, inclusive numa perspectiva identitária na diáspora e num quadro de participação e interacção na comunidade distante da origem e nessa nova rede de sociabilidade: «L'agencement de la grille, l'environement visuel et la nature des propos m'interpellaient d'une façon différente que ne le faisait le paisage audiovisuel lusitanien» (Cunha, 2009: 16). No final, o autor consegue definir de forma muito clara a caracterização daquilo que considera ser a

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«Deputado socialista questiona estratégia da RTPi e RTP África», Público online/Lusa, 6 de Janeiro de

2010. [Em linha] [Consultado em 25 de Maio de 2010], Disponível em: http://www.publico.pt/Media/deputado-socialista-questiona-estrategia-da-rtpi-e-rtp-africa_1416566 Manuel Antunes da Cunha (2009). Les Portugais de France face à leur télévision. Médias, migrations et enjeux identitaires, Rennes: Presses Universitaires de Rennes.

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«identidade discursiva» da RTPi: «Tradition et modernité, culture populaire et érudite façonnent le cadre énonciatif de la chaîne de souveraineté. (...) Les rubriques sur le tourisme, la nature, la langue, la gastronomie et la culture populaire, entre autres, esquissent une représentation plus traditionnelle de la portugalité. Dans cette quête des origines, les fictions à caractère historique évoquent des récits et des archétypes fondateurs, tandis que les émissions consacrés au football, au fado et à la religion réactualisent le mode portugais d'être au monde» (Cunha, 2009: 329).

Mas como referia o deputado Paulo Pisco, outros aspectos críticos se colocam, como por exemplo, o défice de pluralismo, político, cultural etc., sobretudo no contexto das emissões destinadas às áreas geopolíticas mais complexas. E no nosso caso, nas relações com África em particular. Recorde-se uma situação entre muitas ocorrida com a RTP África, que teve de fechar a sua delegação em Bissau em 1 de Dezembro de 2002, depois de um despacho da secretaria de Estado da Informação guineense ter obrigado à suspensão das emissões e, depois, ao encerramento da delegação e expulsão do jornalista João Pereira da Silva, delegado da RTP África, situação que teria alegadamente sido originada pelas referências feitas à Amnistia Internacional, que exigia a realização de um inquérito sobre as circunstâncias da morte do general Ansumane Mané, a 30 de Novembro de 2000.

Em relação a Angola, Vicente Pinto de Andrade7 pôs claramente o dedo na ferida: «(...) Ainda há um longo caminho a percorrer no sentido da instituição plena de um regime democrático. A governamentalização e partidarização dos meios públicos de comunicação social são a nota mais negativa do regime político actual. Não é por acaso que continuam as restrições à extensão do sinal da Rádio Ecclésia (Emissora Católica de Angola). Angola é o único país da África de língua oficial portuguesa onde as imagens e os sons da RTP África e da RDP África não chegam “directamente” às nossas casas (...)».

Sobre esse outro défice que tem a ver justamente com o pulsar das comunidades da diáspora e a sua quase ausência na RTP Internacional, pronunciou-se outro investigador8, também na sua tese de doutoramento, recentemente defendida. Trata- se de uma investigação sobre o modo como os media constroem e aprofundam a identidade de uma comunidade imigrante, o seu processo de integração, os elos identitários e a influência dos media, em que a RTP Internacional é estudada no plano da construção dessa realidade e identidade. Várias questões se colocam então, a começar pela questão das pulsões e das experiências dessas comunidades não emergirem de uma maneira geral nos canais internacionais – bem como, no caso da RTPi, o esquecimento dos âmbitos da herança cultural, patrimonial e identitária portuguesa. É interessante verificar que este trabalho sobre o problema da identidade dessa comunidade, também sobre o problema dos media e suas interacções, incide em particular sobre o meio televisão, sendo que a maioria dos membros dessa comunidade saiu de Portugal nos anos 50-60, alguns sem conhecerem sequer as primeiras emissões de televisão em Portugal.

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Vicente Pinto de Andrade, «A futura Constituição angolana», Correio do Patriota online, 5/8/2008, [Em linha] [Consultado em 25 de Maio de 2010], Disponível em: http://www.correiodopatriota.com/index2.php?option=com_content&do_pdf=1&id=339

Fernando Carlos Moura (2010). «A Construção da identidade de uma comunidade imigrante portuguesa na Argentina (Escobar) e a Comunicação Social». Tese de Doutoramento em Ciências da Comunicação. Departamento de Ciências da Comunicação - FCSH/UNL, Maio.

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A RTPi é assim entendida como meio privilegiado para o reforço do vínculo identitário quer na comunidade, quer na sua ligação à origem, mais difícil se torna definir qual o contributo efectivo dos media para o reforço da identidade, embora se sustente a identidade como construção, como consciência colectiva, percepção comum, e daí a importância de uma nova responsabilidade social dos media e dos jornalistas.

E face à dessintonia entre a oferta e a procura em matéria de televisão global, ganha todo o sentido a questão da declinação da programação para determinadas comunidades com características diferenciadas e a necessidade de ouvir estas mesmas comunidades e de produzir, em consequência, programas localmente. Dessa forma se evitaria a tendência para o discurso oficial, de certa forma hegemónico, para a massa «global», e não diferenciado como é competência designadamente das televisões públicas nas suas emissões internacionais.

Há abordagens interessantes que se podem fazer nessa sequência, como pensar as televisões globais, com as suas algo etnocentristas ou mais ou menos oficiais realidades/histórias locais/nacionais (da origem), exactamente ao contrário do que sucede com os media locais e regionais que tendem a ter estratégias editoriais de tipo nacional/global. Mas mais complexo do que isso, é a possibilidade de as televisões globais terem, em regra, as suas histórias únicas, lógicas editoriais ensimesmadas que abordam sobretudo o mesmo e não esse outro da experiência da diáspora e menos ainda as comunidades e vozes das margens: as diásporas dentro da diáspora, que apenas encontra alternativa nesses «bairros virtuais» de que falava Appadurai (2006), sendo certo que essa margens conquistam novos passos de inclusão sobretudo com os novos media e não tanto com os media tradicionais. A produção de localidade e a reprodução cultural desterritorializada nas novas etnopaisagens não se faz, naturalmente, sem contradições nem impasses dada a «disjuntura entre estes processos e os discursos e práticas mediatizados pelos meios de comunicação de massas» (Appadurai, 2004: 263).

CNN

A CNN actualmente redistribui-se por várias CNN, cada uma das quais direccionada para determinadas regiões geopolíticas do globo. Uma forma interessante de começar por pensar a «massagem» CNN é conhecer a experiência de uma sua ex-jornalista, Rebecca MacKinnon.9 Trata-se de uma experiência que acaba por constituir-se na imagem crua do sistema, algo que foi descrito pela jornalista Lara Logan, da CBS, quando numa entrevista ao «Daily Show» de Jon Stewart, em Junho de 2008, dizia que se tivesse de ver as notícias sobre o Iraque que são publicadas nos Estados Unidos «daria um tiro na cabeça»...

Rebecca MacKinnon é actualmente professora do Centro de Jornalismo e Estudos da Media na Universidade de Hong Kong e é co-fundadora da Global Voices. Entrou para a CNN em 1992, para a delegação de Pequim, da qual foi directora em 1997 e em 2001 tornou-se responsável pelo Tokyo Bureau. No prólogo deste seu ensaio a que fazemos referência, e de que destacaremos uma parte significativa dada a sua importância,

9Rebecca MacKinnon, «The World-Wide Conversation - Online participatory media and international news». Shorenstein Center Working Paper Series, Spring 2004. [Em linha] [Consultado em 2 de Maio de 2010],

Disponívelem: http://cyber.law.harvard.edu/blogs/gems/techjournalism/WORLDWIDECONVERSATION.pdf

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MacKinnon diz-nos com toda a clareza ao que vem e aquilo que nos diz, de tão claro que é, não nos permite que fiquemos com dúvidas sobre o «sistema CNN»: «After working for CNN in Asia for over a decade, I stopped to take stock. I asked myself: Did my job as a TV new correspondent remain consistent with the reasons I went into journalism in the first place? My answer was “no”» (MacKinnon, 2004: 1).

Nesse início dos anos 90, então com vinte e pouco anos, Rebecca tinha ainda todos os sonhos do mundo e o seu idealismo levava-a a acreditar que havia um jornalismo public-service oriented à sua espera...«I believed that a democratic nation such as the United States could only have responsible foreign policies that truly served the people’s interests – and intentions – if the public received quality, objective international news. I wanted to make a difference. To say that I made no difference covering China, Japan, Korea, and other parts of Asia to viewers in the United States and around the world would be overly cynical. But by early 2004 I concluded that my ability to make a difference on issues that I felt were important was diminishing. In November 2003 I interviewed Japanese Prime Minister Junichiro Koizumi, focusing primarily on his decision to send Japanese non-combat forces to Iraq despite widespread public opposition. Despite being a close ally of U.S. President Bush, Koizumi said Bush should be doing more to cooperate with the international community. While this interview was broadcast repeatedly on CNN International, not a single sound-bite ran on CNN USA» (MacKinnon, 2004: 2).

Da sede da CNN em Atlanta, os editores diziam a Rebecca que não tinha havido tempo para passar a entrevista na emissão nacional, mas a verdade é que esse foi um dia calmo demais para a CNN na América. A alta prioridade dos editores não foi para o primeiro-ministro Koizumi mas antes para Michael Jackson, Jessica Lynch, para uma entrevista com o então secretário de Estado Colin Powell, para uma decisão judicial sobre o casamento gay, etc., etc. Diz-nos Rebecca MacKinnon: «I understood the CNN USA producers’ perspective: they are not paid to serve the public policy interest. They are paid to boost the ratings of their shows, and thus make choices every day in favor of news stories they feel will keep viewers from changing the channel to competitors such as Fox News. (...) I was told that the priority of all internationally-based correspondents should be to find ways to get more stories aired on CNNUSA’s prime time shows. We needed to “serve their needs” better in order to continue to justify our existence financially.I was told that the main “problem” with my recent reporting was that my depth of knowledge about Northeast Asia was “getting in the way” of doing the kind of stories that CNNUSA is likely to run. It was after this conversation that I began to wonder whether I should return to the job that was so generously being held for me. (...) I did not feel that the job remained consistent with my reasons for becoming a journalist in the first place. Nor were my concerns limited to CNN exclusively; in fact, most TV journalists I knew at other U.S. networks harbored similar sentiments. Having no debt or dependents of any kind, I was in a better position than most people to take risks. In March, I took a deep breath and resigned. I have gone from being a well- compensated foreign correspondent to being an independent writer, researcher, and blogger» (MacKinnon, 2004: 2).

A história de Rebecca MacKinnon é a todos os títulos elucidativa, nesta caso pela razão inversa do que se passa com os canais transnacionais que procuram levar a sua mensagem aos quatro cantos do mundo, mas que neste caso específico da CNN USA se concretiza no facto de algumas mensagens, que são editadas nalgum remoto «canto do

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mundo», dificilmente se poderão repercutir internamente, nos USA, isto porque no plano nacional do que se trata é de preservar a boa imagem e a «impoluta» política. Sheldon Rampton explicava estas coisas desta maneira: «Any serious contemplation of the process by which the United States went to war in Iraq tells us that propaganda is still a powerful force in shaping public opinion»10 Apesar de Obama e do seu novo ciclo comunicacional, a verdade é que o broadcast continua a ser, ainda hoje, o meio de comunicação dominante, o que também quer dizer que as velhas estratégias de propaganda das décadas das grandes guerras continuaram vivas nas guerras regionais do início do novo século. O que significa que nem no tempo longo, na longa duração, se resolvem os problemas da «história única» e dos novos e velhos etnocentrismos geopolíticos.

Referências bibliográficas

Antunes da Cunha, Manuel (2009). Les Portugais de France face à leur télévision. Médias, migrations et enjeux identitaires. Rennes: Presses Universitaires de Rennes

Appadurai, Arjun (2004). Dimensões Culturais da Globalização. A modernidade sem peias. Lisboa: Teorema

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