OBSERVARE
Universidade Autónoma de Lisboa
e-ISSN: 1647-7251
Vol.9, Nº. 2 (Novembro 2018-Abril 2019), pp. 114-129
Recensão Crítica
EMPREENDEDORISMO EM ÁFRICA: UMA ANÁLISE EXPLORATÓRIA COM DADOS
DO GLOBAL ENTREPRENEURSHIP MONITOR (GEM)
Renato Pereira
rpereira@autonoma.pt
Investigador Integrado do OBSERVARE/UAL. Professor Associado da Universidade Autónoma de
Lisboa (Portugal). Professor Convidado do ISCTE-IUL. Doutor em Ciências de Gestão pela
Université Paris Dauphine.
Redento Maia
Pós-Doutorando do OBSERVARE/UAL. Professor Titular da Faculdade de Economia da
Universidade Agostinho Neto (Angola). Doutor em Ciências Económicas pela Universidade de
Economia de Sófia, Bulgária.
O presente texto apresenta um estudo exploratório sobre o empreendedorismo em África
a partir de dados recolhidos no âmbito do Global Entrepreneurship Monitor. Partindo de
uma base teórica sobre a relação entre o empreendedorismo e o desenvolvimento
económico, são exploradas sete dimensões de estudo em empreendedorismo
internacional: (i) atitudes, (ii) oportunidades percecionadas, (iii) medo de falhar, (iv)
intenções empreendedoras, (v) crenças sobre empreendedorismo, (vi) atividade
empreendedora inicial, (vii) taxa de negócios estabelecidos. Conclusões sobre a
exploração dos dados e pistas para investigações futuras nesta temática são fornecidas.
Introdução
Numa investigação bastante recente, Adusei (2016) comprovou, na sequência de vários
outros estudos sobre a mesma problemática noutras geografias, que também em África
o empreendedorismo é um dos factores que exerce um impacto positivo sobre o
crescimento económico, um dos problemas mais desafiantes para o continente africano
no último século (Ndulu et al, 2007).
Baseado num estudo que cobriu 12 países e representou uma ampla dispersão geográfica
e cultural, embora nenhum país lusófono tenha sido incluído, ficou clara a associação
linear positiva entre o crescimento do PIB per capita e o número de novas empresas
registadas no país num dado ano fiscal.
Ao criar condições de auto-sustentação económica, através do auto-emprego por via da
constituição de uma empresa unipessoal, a forma mais simples de empreendedorismo,
fica estabelecido o nexo de causalidade entre o crescimento económico e o aumento da
atividade empreendedora.
JANUS.NET, e-journal of International Relations
e-ISSN: 1647-7251
Vol. 9, Nº. 2 (Novembro 2018-Abril 2019), pp. 114-129
Recensão Crítica
Renato Pereira, Redento Maia
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Se a racionalidade económica impõe a qualquer empresa o imperativo de satisfazer
necessidades económicas no mercado em que atua, em condições concorrenciais, então
o empreendedorismo, em economias em que os mercados são generalizadamente
ineficientes, ou mesmo inexistentes (como o são muitas das economias africanas),
cumpre ao mesmo tempo uma função económica gerando valor acrescentado e uma
função social garantindo que as pessoas acedem a bens fundamentais que não lhes
chegariam por outra via, contribuindo assim, também, para o desenvolvimento
económico.
Os objetivos deste trabalho passam assim por descrever, analisar e explicar, de forma
sintética, a temática do Empreendedorismo em África, quer quanto ao seu
enquadramento teórico, quer no contexto empírico do Global Entrepreneurship Monitor
(GEM).
O GEM é uma ONG britânica suportada por quatro instituições académicas de grande
prestígio. É a base de dados mais completa e mais abrangente que existe em matéria de
empreendedorismo. Representa cerca de duas décadas de dados recolhidos, mais de
200.000 entrevistas efectuadas por ano, mais de 100 países aderentes, mais de
500 investigadores em empreendedorismo, envolvidos em mais de 300 instituições
académicas e científicas, e mais de 200 instituições financiadoras mobilizadas.
O propósito do GEM, desde o início, tem sido o de fazer uma avaliação científica do nível
empreendedor dos países aderentes para que se possam propor